Por Zaidmann, Louise Briut; Grand-Clément, Adeline; Kyriakou, Irini; Siron, Nicholas

Femmes à l’intérieur

Fig. 1 : Mulheres dentro de casa. Pyxis, inv. 1873, 0111.7, cerca de 460 a.C., British Museum. Foto: ©Trustees of the British Museum. Reproduzida em Anthony F. Mangieri, “Legendary Women and Greek Womanhood: The Heroines Pyxis in the British Museum”, American Journal of Archaeology, 114 (2010), p. 429-445.

Pyxis, British Museum

Fig. 2: Pyxis, British Museum, inv. 1873, 0111.6, cerca de 460 a.C., Foto: ©Trustees of the British Museum.

Será que as mulheres gregas ficavam reclusas no interior da casa (oikos), em um aposento que lhes seria exclusivamente reservado? É o que sugeriu por muito tempo a palavra “gineceu”, “espaço reservado às mulheres”. A pyxis (fig. 1) mostra mulheres ocupadas em atividades tidas como femininas: fiar a lã, manipular e usar perfumes, fazer a toillette, se adornar. A coluna, a porta entreaberta e o espelho constroem um espaço interior. Sobre uma outra pyxis, uma cena de exterior complementa a cena precedente: duas mulheres estão diante de uma fonte e outras duas colhem frutas em um espaço aberto. A oposição simplista entre um interior feminino e um exterior masculino precisa, portanto, ser relativizada: ela se baseia mais em um imaginário do que em práticas reais.

 As fontes textuais que mencionam a existência de um “aposento das mulheres” são raríssimas e se referem a casos específicos. As fontes iconográficas e arqueológicas estão, por sua vez, sujeitas à interpretação. A investigação arqueológica sobre as casas de Olinto no norte da Grécia confirma a impossibilidade de se atribuir a um cômodo da casa uma especificação “feminina”. A distribuição do espaço de uma casa não era  pautada por gênero: o que contava, sobretudo, era controlar o contato entre os habitantes e os visitantes das casas.

Concebido a partir do modelo do harém, o gineceu é, na realidade, uma construção do século XIX, tributária da moda do orientalismo. As mulheres gregas circulavam livremente dentro do oikos. Mesmo o andron, a sala reservada ao banquete (symposion), podia se abrir a elas, na ocasião de festas familiares. Pauline Schmitt Pantel fala, portanto, com razão de um “gineceu inalcançável” (Aithra et Pandora. Femmes, Genre et Cité dans la Grèce antique, Paris, L’Harmattan, 2009, p. 107).

Glossário:
oikos: o termo, polissêmico, remete primeiro à “casa” e à “família”, mas também pode abarcar todo o patrimônio de um indivíduo, inclusive os escravos.

pyxis: pequeno recipiente em terracota, redondo, com uma tampa, que podia servir de caixa de joias ou de maquiagem.

D’après Lisa C. Nevett, House and Society in the Ancient Greek World

Fig. 3 : Segundo Lisa C. Nevett, House and Society in the Ancient Greek World, Cambridge, Cambridge University Press, 1999, fig. 2, p. 23. ©Foto: DR.

Planta de uma casa em Olinto

Os cômodos das casas não se organizam conforme um mapa binário distinguindo espaços femininos e masculinos, mas se dispõem em torno de um pátio central. As mulheres podem, portanto, circular pela maior parte das salas, que os arqueólogos hoje em dia afirmam ser multifuncionais (1). A única singularidade nesta disposição é o andron (“cômodo de recepção”): os visitantes têm acesso a ele sem passar pelos outros cômodos. Lembremos, ainda, que inúmeras casas gregas tinham um segundo andar, onde atividades ligadas à tecelagem de lã podiam ser desenvolvidas.

Nota:
(1) Ver  Monika Trümper, 2010, “Space and Social Relations in the Greek Oikos of the Classical and Hellenistic Periods,” in B. Rawson, ed., A Companion to Families in the Greek and Roman Worlds, Malden-Oxford, 2011, p. 32-52.
Intérieur grec, le gynécée

Fig. 4 : Jean-Léon Gérôme, Interior grego, o Gineceu, 1848. Óleo sobre tela, Musée d’Orsay, Paris. © Wikimedia Commons, Foto: BrokenSphère.

Gineceu e harém

O quadro do pintor francês do século XIX, Gérôme, que também pintou haréns orientais apresentados como contemporâneos, testemunha a associação feita naquela época entre os aposentos femininos da Grécia antiga e aqueles do Império Otomano. Poses de nudez e lascívia são encontradas igualmente em outras pinturas de Gérôme, como As banhistas do harém ou O banho turco. A imagem do gineceu grego deu ao pintor um pretexto para exibir os corpos nus das mulheres.